27 de março de 2014

Fundo do buraco

Acredito que o ser humano tem uma tendência natural ao sofrimento. Ninguém pode prever o próximo sofrimento muito menos evitá-lo. Ninguém pode ir pra escola e aprender no ensino fundamental como blindar-se dos sofrimentos que a vida irá nos proporcionar. E ninguém pode, nem por um instante, cogitar a possibilidade de ser isento de sofrimentos, pois isso seria uma senhora tolice. Todos sofreram e sofrerão. Desde quando o ar entra nos nossos pulmões e nos causa uma dor lancinante, da qual por sorte não lembramos, até o momento em que ele para de percorrer nosso corpo. Sofrer faz parte de viver, mas não precisa ser um sinônimo disso.
Acredito também que, em certos momentos, o ser humano tem uma tendência a apreciar o sofrimento. Não digo de gozar ou agradecer por ele existir, mas entregar-se a ele. Às vezes nós nos deparamos com uma situação difícil e simplesmente nos entregamos. Sofremos com mais empenho, choramos com mais dor, sentimos com mais pesar. Talvez essa seja uma maneira de fazê-lo crescer logo para que diminua logo. Assim como a sua avó manda você se cobrir inteiro quando está com febre e aumentar a temperatura para que ela seja estimulada a diminuir. Assim como escutar aquela música mais depressiva quando tudo está mal. Assim como se isolar e viver o momento do sofrimento. Diferente de tomar um banho de água fria, se animar, botar um som alto e reagir. 
E qual é a melhor saída? O choque pra mais ou pra menos? Eis a questão.
A verdade é que por muitas vezes agravo o sofrer ao invés de atenuá-lo. Ajo com imaturidade, parece que busco problemas e sofrimento. Sei o caminho que tornará tudo melhor, mas ainda assim tomo aquele que tem a dor como desfecho. Nas constantes tentativas de ser sempre resolutiva e madura, escapam momentos de total irresponsabilidade, de atitudes infantis e palavras incompreensíveis. Parece que o sofrer é mais atraente. Parece que o clima ruim vale mais a pena.
A certeza que tenho é que tudo passa. Mas sabendo disso me pergunto por que me coloco nessas situações? Por que prefiro seguir pelo caminho do sofrer? Talvez sempre fugir dele também não seja a melhor saída. Sempre agir com maturidade, tranqüilidade e calma cansa. Faz a personalidade se tornar preto e branco, faz os sentimentos primitivos ficarem presos, sem escape. Racionalmente pensando eu prefiro que eles fiquem quietinhos e em preto e branco, mas em muitos momentos o emocional toma conta e age com um vigor negativo. Age pra estragar, pra destruir, pra desestruturar e desestabilizar. Passa, eu sei que passa, mas daqui que passe, dói. Sofrer dói. E por buscar sofrer e dor é que me complico nas minhas certezas. Nenhum ser humano racional faria isso, ninguém gosta de sofrer. Mas certas atitudes são inevitáveis, certos silêncios são inquebráveis, certos gelos não são derretidos com um sopro. E mesmo sabendo a conseqüência de tudo isso, a gente segue pelo caminho do sofrimento, eu sigo por esse caminho. Sigo porque preciso extravasar e deixar que os pensamentos instantâneos e insanos virem ações irreparáveis e que causam dor. Soa como loucura, mas meu emocional é muito mais louco que isso.

Nessas horas eu vejo que não podemos evitar sofrer e muitas vezes corremos atrás dele e o cultivamos. Sabemos que outros caminhos existem e que respirar fundo e contar até dez seria a melhor solução, mas simplesmente falamos, agimos, somos. A morte já dizia que os seres humanos a assustam e apenas posso concordar. Sendo um misto de alegria e tristeza e todo dia preservando isso, somos montanhas russas em cima de duas pernas. E assim como apreciamos as descidas do brinquedo, as vezes apreciamos as descidas da vida.

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